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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

QUE TAL UM SALTO!

                                                           
Tenho a estranha mania de ficar procurando causos por onde passo. Às vezes estou dentro de um ônibus e me quieto para escutar as conversas que giram ao meu redor. Pois ontem me aconteceu algo diferente e talvez surpreendente em um mundo que parece dar pouca atenção ao olhar. Andava pela rua e atrás de mim caminhavam dois jovens rapazinhos. Em determinado momento um pergunta ao outro:-"E aí, mano, como estão as coisas com ela?-" "- Cara, você não vai acreditar....quebrou o gelo. Acabou aquele ar de superioridade. Ela me mandou uma mensagem de madrugada dizendo que estava feliz pelos dois meses de namoro e que estava muito encantada com tudo! nem consegui dormir. Agora vou esperar sair o dinheiro do show do SESC e comprarei um presente pra ela.-"
Bastou. Não precisava ouvir mais nada para saber que o rapaz fora tocado por uma paixão, por uma espécie de festa que só acontece a quem não foge dos precipícios e não tem medo de saltar. Minha alma ficou alvoroçada, pois ouvir o relato, sem medo, de um menino com outro, na rua, é simplismente saboroso, é poder acreditar, novamente, que há em toda a gente a vontade de estar junto, de agradar, de ser "fofo". Tive uma intervenção no meu olhar que já estava acostumado a não ver nada de tão poético e natural. Há poesia nisso que assisti. Há uma coisa meio heróica também, pois nesses dias em que se manifestar amorosamente é piegas, ouvi um menino dizendo, no meio da rua um, quase, euteamo- junto mesmo.
Depois voltei um tantinho ao tempo e me lembrei da passagem que ele diz:"sair o dinheiro do show..." Artista! Tinha que ser! A emoção é outra! Gente desse time joga de verdade, não se esconde covardemente, não tortura, não denigre. Gente assim respeita, e muito, a decisão alheia, não invade, deixa que percebam suas crenças, descrenças, indecisões e tudo que as empurra ou paralisa. Gente que é artista é verborragica, é confessional, é mais autêntica. Ele é!
Depois disso fui brindar comigo. Entrei em um bar suspeito e fiquei a chorar de amor, vasculhar frestas, entorpecer-me de àgua. Nos últimos dias tenho me conhecido melhor, e acabei descobrindo que, à revelia de alguns, gosto de quem sou, e por isso volto pra mim com algo novidadeiro, com sentidos mais alertas, e com uma leve sensação de que já fui tarde, mas só volto porque fui.
Onde eu quero chegar com isso? No menino que despertou meus ouvidos e meu olhar, que me acumulou de poesia e me fez ter uma vontade enorme de, sem medo, ter o mesmo precipício que ele, e saltar junto. Que tal?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

NÃO É.


Raramente sinto -me sozinha. Tenho a estranha mania de me povoar de sonhos e de eternizar minhas ideias, mesmo quando dependo do outro para que as possa cumprir.
Sempre afirmo que tenho muita preguiça de sofrer e que acho tedioso amar sozinho,acho um absurdo ser ignorado, ser destratado, mas há uma gente com disposição para te fazer isso. Bem, comigo não funciona, pois arrumo minha bagagem de mão e parto para uma nova história e vivo de maneira tão intensa que o que era intenso fica raso -como deveria ser e a gente não viu- e o que é novidadeiro ganha um urdimento tão maravilhoso que torna-se impossível se sentir desamparado.
Minha solidão é sempre "mini", pouco elástica e cabe perfeitamente em mim. Não combina comigo me entrevar e faço, sempre, piadas de minha vida, tenho um humor que me conforta e a minha boemia auxilia nisso com graça e satisfação.
Estava meio sem ar por aqui e, decidi, fazer um passeio, acender um cigarro e me deixar levar. Decidi não me permitir afetação do isolamento e nem sair por aí como se estivesse em estado de balada.
Me dei permissão e aproveitei o fim de samana para uma análise profunda de meus desejos. Descobri que, às vezes, a angústia nos habita por sermos parceiros dela e acabamos cultivando como doença aquilo que pode ser tratado como reflexão. Depois de muito pensar e pensar resolvi colocar sobre minha pele um vestidinho curto e leve e buscar a Lapa e suas nuances, e seus performáticos botecos e sua gente afinada e dona de" um sei lá o quê" que me encanta.
Eu já havia gostado e muito de tudo. estava tão acostumada comigo que me reencontrar naquele espaço foi presente. Dancei, cantei, me encantei e me deixei enamorar. Nunca foi tão rápido, tão casual, tão sem paranóia e tão doce...
Estou de volta para mim. Sem mágoas, sem dores, sem culpas, mas sem um certo entendimento  que, sei, o tempo me revelará. Guardo em mim alguns questionamentos que talvez nunca tenha respostas, mas encontrei uma...Simplesmente não foi. Nunca foi. Era apenas o que gostaria que tivesse sido, mas não é.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Oh! Poeta
Como és inquieta
Vive colocando
Seus versos em linhas
Tensas e adimiráveis
Aquieta-te a alma
Descansa teus pensamentos
Acalenta teu sono
Ele clama por um minuto
De silêncio
Oque fazes com teu corpo?
Não sabes que ele é o templo de tua alma?
Relaxe, mergulhe no oceano
Namore com as nuvens
As flores te esperam
As rosas querem te desenhar
Serias um belo jardim
Pensa! Quantos espirítos contemplariam-te
Hoje é apenas uma passagem
As horas se vão
O relógio não para...Eu sei
Vamos tecendo nossos sonhos aqui
Nossos desejos clamam liberdade
Querem criar asas e voar, voar e voar!
Não perdeste o contato com nada
Tu respiras
Sente
Cheira
Tem sede
Fome
Onde está acomida, agora?
Perdestes os sentidos
Tua ânsia freia o imaginário
Vem!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os Três Mal- Amados



Não sei se agradeço, não sei se peço perdão, mas a noite de ontem foi de reencontros. Fiz um estágio na nossa terça sem lei. Fui, mais uma vez, fora da lei. Me beijei inteira, fui abraçada e alvoroçada pelos que não via há alguns meses e descobri que estava com muita, muita,muita saudade de mim. Falei , falei, falei muito e descobri que minha fala estava contida, reprimida...por mim, pela minha doidice de querer parecer sã- rsrsrrs- e lá veio meu velho Demo pra me fazer , mais uma vez, perceber o óbvio- coisa pra outra postagem-.
As conversas- muitas- até quase agora- como sou irresponsável quando feliz- me fizeram repensar tantas das muitas coisas. Fiquei querendo saber onde eu me enfiara e não descobri ainda, pois acho que estava dando uma morridinha de mim só pra me acordar assim com uma certeza, quase absoluta, de que posso ser eu mesma e me deixar fluir...
Nas conversas que permearam a noite, madrugada e alvorada muitas poesias saltaram de nossas bocas, muitas músicas foram relembradas e dançadas- nossa!! como estava precisando dançar- muitas loucuras foram abençoadas e dentre elas apareceu uma poesia do João Cabral de Melo Neto que me fez perceber o quanto me desviei de mim e a causa disso que , hoje, não é mais. Confuso não? Mas eu entendo e isso basta.

Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

Valeu Nanda ! Valeu pelos poemas, pelas músicas, pelo riso fácil, pelo encontro com todos...Valeu!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

NÃO FOI NADA



Vou ensaiando versos para minha próxima invernada.
Perdi a hora e a palavra
Perdi o contato com minha escrita.
Estou calada
Boca
Peito
Sexo
Tudo se cala e me convence
- não foi nada-
Estou sendo boicotada por mim
Não gosto
Ser intesa tem seus rasos
Suas tramas e insatisfações
Vejo meus planos futuros
-quando não há futuro-
Se estilhaçarem,
Batendo em meus comodos internos
Fazendo uma mudança
Sem me dar satisfação
Eu mesma financio essa, quase, tortura
Eu mesma pingo em minha testa
Gotas de descaso
Sei que não há acaso
Mas eu não vou me comover
Quem saqueou minha alma
Abandonou o caminho
Robou-me o senso
Atropelou minha serenidade
Certamente, pedirá minha calma
Não vou revelar
Nada
Não vou intitular nada
Vou tecer novas e antigas jornadas
Em mim
Para mim
Que não me abandono
Pra mim que fez passeio
Com um cão sem dono
Cão que me latia ilusão
Cão...
Os estragos estão na cara
Os desperdícios estão na alma
Vou me deixando congelar
O Diabo, que mora em mim,
Envelheceu um tanto mais
E ele só é Diabo porque velho
E o cão, certamente, me dirá
- não foi nada-
Ainda nem sei o que perdi
Ainda não sei se perdi
Talvez, no fim
Eu tenha ganhado
Perdi a palavra
O som de meu pensamento
o ruido sensual de um click
Depois ganhei a nova estrada
Onde tenho que me doar
Na minha suite
Na minha, estou fechada
Calada,
Acordada.
Não há culpados, nem vitimados
Apenas o sentimento que me habitou
Vagou sozinho por um tempo
E de remexer meus conceitos
Me fez enchergar seus defeitos
E hoje, aqui, onde ele - o quase nada-
Já habitou
Restam frascos e comprimidos
Ficam em meu cardápio
As refeições que necessito
Suor,
Lágrima,
Gozo e
Sangue
O meu mundo pode até ruir
Mas que seja como água
Pra eu me reconstruir.
Seguirei cumprindo
Minha sina
E no fim
- não foi nada-

                                                       Das Preta.

PS: Para minha querida e sincera amiga cheia de "brutalidades", mas que sabe, como ninguém, me escutar e me fazer repensar e dizer minhas verdades mesmo quando não as quero ouvir.
Pela conversa de ontem, pelo o encontro de sempre.
Valeu tudo Nanda. Vale eternamente.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

COMO ANJO



                                                                              

Preciso ficar acordado

Pois assim eu velo o teu desejo

Contemplo a sua loucura

E desperto o seu equilibrio

Apenas me retraio aos teus encantos

Por entender não pertecerem a mim

Encantos sedutores e vorazes

Não quero ser um barco à deriva

 Em seu oceano

Ainda sou o comandante dessa embarcação

Sou seu anjo protetor

Preciso ficar acordado e atento

Sua alma sempre se desprende para voos matinais

Por que essa pressa??

Onde quer chegar? Pra que se enganar?

Sou ainda menino, travesso, mas menino

Fico espantado com seu volume de ideias

Ainda estou aprendendo a dialogar com sua alma

Espere um pouco

Deixa eu respirar

Preciso voltar a manter o leme

Pra você não se afogar

Avisto os corais

Ou será um grande iceberg

O coração de quem não soube te amar?

Morena com o olhar de sereia

Tu és mais envolvente que teu próprio canto

Preciso ficar atento

Você às vezes me parece triste

Escreve triste

Exala uma certa busca

Daquilo que não existe

Mas isso é só pra chamar minha atenção

Já te disse preciso retomar o leme

Pra te presentear

Pra que não percas mais

O comando de teu barco

Para que não abandones os marujos dessa viagem

São eles que guiam os sonhos...

Preciso ficar acordado

Não posso dormir

Entende...

Não posso ser teu empréstimo

Pois o saldo, pra mim, está negativado

O mundo está prestes a acabar

Como pagaria e em seguda devolveria-me?

Mas façamos um trato

Isso eu faço

Juro!!

Permito-me ancorar o barco

Atrasar o relógio

E ao invés de já chegar para dormir

Vamos sentar nos jardins dos sonhos

Contemplando as cores

Avistaremos o desejo

Pediremos permissão aos Deuses

E assim nos transformaremos

Com a vestimenta azul

Seremos lendas

E sem medo colocarei não só as mãos

Mas todo o meu corpo dentro do seu

Com perfeição

Te levarei pra conhecer mundos invisíveis

Nem medo, Nem assombro

Nem desespero, Nem indiferença

E quanto aos demônios

Fica tranquila...

Serei seu anjo

E anjos precisam ficar acordados e atentos

Por isso não posso dormir...

E só por não poder ser esse "cadin"

Não aceito teu convite

Mas com isso ...sonho.

                                                             Serpa

PS: Há algum tempo que eu e meu amigo, Serpa, criamos diálogos para nossa escrita. Essa foi a resposta que ele fez para o meu poema" Vem dormir comigo hoje"... Espero que meu mundo não se acabe, por enquanto, e que dormir continue sendo um prazeroso brinquedo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ONDE ESTÁ O POEMA?

                                                                           

Durante todo dia
Busquei o poema dentro
De mim
Como menino
Ele fugia
Pela janela voou
Pelos meus olhos brotou
Numa brincadeira
Me espia
Me fia
Me atormenta com sua
Indagação
Com sua demonstração
Com suas inúmeras tentativas de sins
Com suas incalculáveis sabotagens de nãos
Quais vales perdidos na tarde ele emoldurou
Em outro papel?
Em quantos anoiteceres
Busco em ti
O cheiro do que me encanta
E não me entregas uma inspiração?
Há uma impaciente
Espera pela sua chegada
Venha logo
Se instale e liberte de mim
Esses segredos de suas imagens
Venha e libere de minha alma
Essas palavras todas
Que me impediram de calar o grito
E transformar o silêncio
Em pura expressão
Entrega-me tua rima
Teu verso branco
Tuas reticências e
Deixa que o meu sujeito oculto
Faça uma revolução sintática
Nessa coerência literária.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

EMPATE





Acostumar-se ao erro
Sabedoria dos amantes
Não precisaria de                                         
mais palavras
Para nos mostrarmos
farsantes
A farsa??
Um único ato
Cheio de inteligente
Graça
Está no riso
Sem dor
Então...
Não há farsa
onde tudo
um dia passa
Há apenas
A paisagem da dor.
E essa...
Essa meu amor
a gente
Colore
Essa a gente
Pinta
De uma outra cor
E se pra você
Não é música
Se pra você é só
Poesia...
Memorize
Transforme em
Afinada harmonia
Pra esse tipo de emblema
Não há um sistema
É raro
O tema
Amor...
Amor não é palavra
É matemática
Um mais um
E pronto
Nenhum...
É só acostumar-se
Ao erro
É só submete-lo
Ao acerto
É jogar.
Viver é um jogo
Aposte no outro
E seja você
Aposte junto com o outro
E perca você
Aposte e perca o outro
Ganhando você
Jogue de novo
Num outro
Pague pra ver
Redescubra no outro
O que não há
Em você
Descubra o outro
E perderá aquele
Que há em você
Perca o outro e
Arrisque um empate
Com você
Arrisque,
Arrisque
Um outro de novo
Embaralhe as cartas
Coloque-as na mesa
Escolha um naipe
Faça uma nova aposta
-Se gostas-
Mas assuma se perder.
Na máquina –caça níquel- amor
O único que perde
É quem tinha tudo
Pra vencer...

                                   DAS PRETA.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

EU COMIGO...VIAJANTE


 A noite passada foi mais uma noite insone. Foi uma noite de questionamentos internos, lágrimas de tristeza e raiva e uma introspecção que cabe a qualquer ser que, indignado, vai recapitulando o que chamam de erro.
A noite foi de vários riscos e rabiscos, de músicas ouvidas baixinho e de som de respiração de filho para me fazer entender mais de minha função mãe, mas acima de tudo a noite foi de lembranças e catarse.
Quando eu era criança a vida corria solta e leve. Eu não imaginava que crescer fosse tão cruel. Não imaginava que uma gente semelhante a mim fosse teimando em meu caminho a cavar buracos pra que eu mesma caisse.
Sempre fui um tipo de gente que, irreverente a tudo e a todos, assumiu com a vida o compromisso de ser feliz. Com o tempo descobri que a felicidade, tão ensinada pelos justos que me precederam, passou a ser artigo comprado em supermercados, lojas de conveniência ou uma permuta feita, na bacatela, para agradar aos alheios, e com isso me senti só, mas de uma forma ou de outra fui construindo meu mundo independente de olhares soturnos. Sou temerosa. Tenho medo de olho gordo, tenho medo de carrascos em pele de amigo, tenho medo de gente e gosto delas- que loucura, não?-. Tenho medo de quem me abraça e quando desfaz o abraço me espia, buscando em mim defeitos que nem eu conhecia.
Com o tempo fui me maturando e me tornando quase que uma estudiosa do outro. Fui me tornando mais só e descobrindo as vantagens que há nisso.
Olho para trás e vejo que me apaixonei muitas vezes, me estrepei algumas, fui futil em outras, enviuvei sem casar, matei um amor que me matou, falei e falei muito, mas nunca fui leviana. Nunca fiquei na superfície por medo, se o fiz foi por precaução, foi pra ganhar tempo.
A solidão é algo que não me apavora, mas ser jogada nela por despeito, e pior, por uma gente que me desconhece, que não é, nem está qualificada a me julgar... é de amargar essa dor que agora sinto.
Desde de pequena ouço -" cuidado! nem todo mundo que te sorri gosta de você". Não devo ter feito uma avaliação muito boa nesse contexto.
Não gosto de um monte de coisas, não gosto, por exemplo, de ser assunto, ou tese a ser discutida. Não sou um caso de estudo e se há alguém que esteja interessado em me conhecer que o faça sozinho e se surpreenda ou se arrependa, mas o faça antes de me atropelar sem que eu perceba. Ninguém sabe ,mas conservo uma irritante ingenuidade, ou melhor, conservava até agora pouco ( são 02:40 da matina). Ah! não gosto que futriquem minha vida, que revirem meus baús sem saber de minha essência. Não gosto que apontem meus defeitos como se eles não os tivessem. Não gosto que interfiram em minhas escolhas ou que me tratem como se minha vida fosse um coletivo onde todos podem dar sinal.
Sou um ser que dá a cara a tapa- é preciso, no mínimo, disposição para isso-, que honra seu ofício. Pago - e caro- pelo meu conhecimento. Tenho talento para o palco , mas não transformo minha vida num espetáculo. Cumpro meu papel de poeta, atriz, mãe, filha, amante- quando me deixam-, professor e faço com a minha vida aquilo que me convém. Vim ao mundo para viver, com a garantia de que cabe a mim essa função, logo não preciso que ninguém o faça por mim.
Gosto de polemizar, mas com gente inteligente. Nunca com medíocres...nunca.
Vim de onde não se imagina. Com uma história que foi conversada em sessões, mas dei alta ao analista antes do tempo, acho. Algumas histórias fariam Nelson Rodrigues querer retornar ao mundo dos quase vivos -rsrrsr-, mas nunca usei disso para justificar minha insegurança ou loucura.
Não sou temente a Deus, o respeito.
De todas as coisas do mundo a que menos gosto é de sofrer. Não tenho talento para isso. Sou preguiçosa para o sofrimento, mas me encolho na tristeza-como faço agora-. Fico triste de doer quando me atingem alma adentro- porque é a alma e não o corpo que se contorce com a injúria.
Ninguém sabe, de verdade, quais verdades traz o outro se não o conhece. Só quem o conhece (será?) sabe. Só quem faz a troca conhece os defeitos e esse, acredite, foi eleito como amigo, como alguém pra dar amparo, abrigo, como alguém que tem asas e nos leva pelo bico para voar.
Nunca tive problemas em pedir desculpas, mas que culpa tenho de não ter medo de dizer o que penso? Que culpa tenho de querer instigar o outro a pisar por caminhos que ele mesmo escolheu, mas se esquiva?
Um pouco de quando me entrego é questionável, por causa disso, condenável, e daí? Sou inteira em tudo que faço. Aprendi desde criança que assim valeria a pena dançar esse baile chamado vida, mas não me disseram que o maestro seria uma gente invejosa e disforme. Em meu baile essa gente não entra, não serve, não limpa, não interfere.
Denomino amor aquilo que faço com e por amor, mas essa palavra não impõe um seguimento único atrelado a conceitos duvidosos.Essa palavra é mais.
Amor é o que damos sem exigência de troca. Amor é quando importa, é quando nos tornamos surdos às intrigas, é quando rimos e/ou choramos diante do outro sem precisar nos defender. Amor é quando todo o resto é perfumaria.
De resto, do resto? não sei, não sei onde exatamente me encaixo, onde me defino, onde me traço. Mas sei, exatamente, como tocar em frente e o quanto é fugás ter que olhar pra trás.

PS: Um passeio em seu bico pra eu poder descansar minha cabeça que ainda fervilha, moço.
Posto a última música que escutei por volta das 04:00h

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

IMPRESSÕES



                                                                        
                                                        
Quando meu homem me pega por trás
E cheio de crimes revira minha cabeça
Vejo em seus olhos a inquietação
De suas histórias
Histórias que devem ter cercas
Devem ter se enfiado em buracos
Transformado o óbvio em superstições
Meu homem sabe do desejo
Sabe o que é paixão irrefreável e assim
Me pega de lado
E meus olhos é que  reviram afobados
Sabe que por ser de peixes
Me mergulha inteira e me molha
Sou curiosa de suas intimidades
E , dessa forma, vou usando de artimanhas
Solto fogos de artifícios e não indago coisa sequer
Vou nos criando novos na nudez de nossos atos
Quando ele me atravessa o corpo
Convivo com o perigo de enlouquecer
Mas me torno uma visitante de mim mesma
Construo pontes, edifícios,
 Cidades inteiras dentro de mim
Para que ele possa, de vez em quando, me habitar
Deixo escadas de serviço sempre à vista
-Caso ele caia sem aviso-
Para que escorregue ainda em mim
E entenda que não há risco em se deixar flutuar
Trago nos olhos e na púbis uma umidade latina
Que se arvora quando ele me encara
E minha boca revira sua língua e eu me deixo
Encharcar de forma indecifrável
A alma do meu homem, embora ele não saiba,
É revestida de um feminino velado
Tem choro, tem jura, tem fotos,
tem medo, tem carência, tem impulsos.
Dizem que ele “não presta” e que me falta juízo
Pra aceitar esse improviso ou essa situação.
 Somos donos de tantas viagens, tanta viradas,
Tantas falas, tantos gozos.
Em nossas horas já contamos sinuca, besteira,
Orgulho, churrasco, família, filhos, esquinas,
Fé, religião, força de Ogum e maturação.
Já nos doamos tanto, já nos permitimos tanto
Que do meu homem vou herdando o pouco sono
A safadeza, a esfregação e o silêncio.
Do meu homem vou herdando a depuração,
A lisura, o desconhecido e me faço travessia
Pra ele se perder no meu abraço,
Para não me negar amasso,
Pra ele me tirar da solidão.

Hora certa:

Faça parte da familia: