contador de visitas
Selecione o Idioma

domingo, 30 de outubro de 2016

DAS LEMBRANÇAS MINHAS DE ALGUM DIA.




Estou acumulada de lembranças. Lembrar deixa a gente nostálgica e nos embriaga de tristezas, de alegrias, de tempos soltos em nossa memória.
Fui uma criança feliz, acho.Vivia em uma casa com um quintal cheio de árvores e um aroma de possibilidades que permitia o sonho futuro com esperança de eternidades.
Sou ocidental e isso me tatua na alma um romantismo irrefreável. Minha mãe sempre foi um ser especial,as proibições pouco ocorriam, éramos livres e isso fez com que eu não visse "maldade" em muitas coisas. Sou meio Pollyanna ainda.
 A vida era pontual como o abacateiro que imperava no terreno onde eu corria alvoroçada pelo vento que rodava as minhas saias já usadas naquela época. Meu vô era um negro lindo,vestia calças e camisas  de linho e nos pés calçava tamancos doutor scholl. Ele não morava no terreno dos sonhos,ele tinha uma casa grande com pé direito alto, janelas verdes imensas e quartos que tinham saídas para todos os outros cômodos da casa. Visitar meu vô era como ir à Disney, lá era meu melhor brinquedo.
Lembro- me hoje de um dia do ano de 1975. A novela Gabriela estava sendo transmitida pelo canal plim-plim. Na minha casa eu assistia a todos os capítulos. Minha mãe não esculpia um olhar malicioso,logo assistia aquele folhetim com naturalidade, Mas na casa do meu vô a coisa não era bem assim. As tias velhas diziam pelos corredores que era uma pouca vergonha as cenas que eram exibidas. Eu não entendia direito aquela conversa,pois não via nada de escabroso naquelas imagens. Quando eu ia pro meu "parque", levava uma sacola com algumas roupas e nenhum brinquedo,pois sabia que as invencionices de meu vô eram as melhores chances de ter o novidadeiro.
Ele me acordava com as pontas dos dedos em meus pés, fazia sinal de silêncio levando o dedo indicador à boca e seguia para a cozinha que era enorme e tinha um fogão à lenha onde eram preparadas algumas delícias e a comida dos cachorros, não havia ração na casa de meu vô. Adentrávamos aquele espaço tão sublime para minha vó. Sentávamos e fazíamos dezenas de bolinhas com os miolos do pão,colocávamos em uma bacia e íamos  para a calçada esperando que os passarinhos viessem comer em nossas mãos. Essa é uma cena que flutua em minhas lembranças até hoje. Eu voava com eles, subia em árvores, corria pela rua, roubava mangas e nessas peraltices ouvia meu vô rir e dizer que eu parecia uma moleca. E era.Não entendia, como não entendo até hoje, essas diferenças que apontam para os gêneros. Menina brinca de casinha, boneca e meninos correm,sobem em árvores e se arriscam. Eu podia tudo.Só não sabia que não poderia assistir ao capitulo daquela noite de uma novela que eu entendia ser ficção.
No final da tarde minha mãe sempre voltava para me pegar, mas eu queria era dormir na casa grande. Fiquei. Tomei um banho- de bacia- Meu Deus! Lembrei desse detalhe agora.Tomávamos banho em um abacia imensa...Não consigo lembrar o porquê de não ter chuveiro...
Enfim, veio a noite e todos estávamos na sala de televisão.Meu vô e vó estavam um ao lado do outro.Ele com um pijama de listras azuis e ela de camisola branca. Ambos calçavam meias e eu via os seus pés juntos sobre a banqueta. Passava o jornal nacional e a reportagem era sobre a extensão do território brasileiro e o fim da ditadura. Assistia aquilo sem me dar conta da grave importância,pois o que, de fato, me importava era assistir ao capítulo da novela. A vinheta final do jornal fora exibida e eu me ajeitei no sofá ao lado do meu vô.Estava cheia de expectativas quando uma das minhas tias diz pra eu ir pro quarto, pois aquilo não era coisa para criança assistir.Enlouqueci. Como assim eu não podia assistir aquilo que fiquei esperando o dia todo? O que poderia ser mais feio, avassalador e cruel que o jornal nacional questionando o direito às greves? Não, eu não podia aceitar aquilo. Olhei para o meu vô como que pedindo para ele interferir naquela bobagem...nada.Mas ele fez um gesto com os ombros que na minha leitura era o seguinte: "dá seu jeito".Entendi. Fui para o quarto, que tinha uma porta que dava para a sala e cuja fresta me permitia assistir a novela, coloquei um lençol no chão, deitei e dali pude ver ao capitulo proibido. Enquanto assistia a novela, me questionava a causa da proibição. Não via nada demais. Gabriela- personagem interpretada por Sônia Braga-subia em um telhado para pegar uma pipa. Eu, mais cedo subi em uma mangueira. Os "fundilhos" dela apareceram, os meus também.O que havia de tão terrível nisso? Continuava sem entender... Assisti o capítulo até o final e quando olhei para o lugar onde estavam meus avós, vi a cena mais erótica daquela noite. Meu vô e minha vó roçavam distraidamente os pés um do outro e naquele balé eu pude ver que as pessoas só viam o obvio e que eu conseguia entender e ver a vida em seus pequenos gestos e detalhes.
Erótico não era o ato de Gabriela subindo no telhado. Erótico era a cumplicidade dos amantes naquela sala em que a Bahia revelada na tela de TV, era o Salvador do gestos que poderia traçar as preliminares de um ato imortalizado por aquilo que ouso chamar de amor.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016


Quando eu nasci,
Uma Oxum Apará,
Dessas que nascem
Da união entre Xangô e Obá
E carregam espelho e espada nas mãos,
Disse: Vai ser artista/poeta na vida!

Não sou tão poeta
Mas sei interpretar
Visto-me de ouro e rosa
Sou calma e agressiva
Depende daquele que me encarar

Aprendi a ser como os bambus
Das cercanias das cachoeiras
Envergo, mas não me dobro.
Temo as coisas que não vejo
Combato cada uma com a espada
Que me foi dada e deixo meu inimigo
Olhar no espelho de meus olhos
E saber que, pra mim, ele não vale nada.

Danço pra quem quiser
Sorrio como o rio que passa
Sou de Ogum a mulher
Em meu corpo reina Iansã
Seis meses guerreira
Seis meses Oxum em sua doçura
Mas não me venha com branduras
Nas águas dos rios, sei mais que nadar
                                                                                                            
Eu podia fazer de mim outra escrita
Esconder-me em templos mais aceitos
Fingir ler uma gênese que não decifro
Mas esses mistérios
Mas esses tambores
Esses oris
Abadás
Pombas Giras
Pretos Velhos
Exus
Pontos e Panos
Me deixam girando
No mundo
Fazendo uma África dentro de mim

Oré yeye ofideriman!


   


Hora certa:

Faça parte da familia: