contador de visitas
Selecione o Idioma

Postagens populares

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

MENTIRAS




Não te beijei à toa naquela noite
Beijei tua boca e lambi tua alma
Desesperada dancei em teu corpo
Não tive volta
Cravei meus dentes em tuas costas nuas
E gozei pra dentro
Fingir ainda é um orgasmo
Caprichei nas mãos
Me criei asas
A liberdade de estar presa a você
Deixa enjaulada minha covardia
Só te abro as pernas
Por estar coberta de coragem
Um dia... Ah!! Retiro de ti essa armadura de macho
Te presenteio com um mundo
Te ensino a fazer como faço
Escrevo pra você uns tontos versos
E finjo entender porque nunca, em mim,
Te mato.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

SERÁ QUE EU CRESCI?




Lembro-me de quando era pequena e minha infância era recheada de histórias e “causos” narrados pela minha mãe e pelas professoras que me embalaram no Jardim de Infância do instituto de Educação Professor Aldo Muylaert.
            Desde sempre fui tragada pelo reino do faz de conta. Desde sempre as palavras foram minha vitrine mais visitada, meu castigo esperado, minha viagem à Terra do Nunca.
            Era muito comum construir histórias, transformar bonecas em personagens vivos, envolver todas as pessoas possíveis nesse que era meu delírio escolhido.
Minhas bonecas tinham roupas pra tudo. Minha mãe as costurava à mão. Elas tinham nome, filiação, endereço... Tinham uma história que eu construía com data de nascimento e signo. Uma poeta já habitava em mim sem que eu, sequer, desse conta disso.
            Nunca fui das exatas. Isso me fazia detestar as aulas de física, química e matemática. Aprontava. Sempre tinha um experimento novo para realizar na sala de aula, pois sabia que isso deixaria os professores enlouquecidos.
E aí acontecia o que eles NUNCA desconfiaram... Eu adorava ser “castigada”. Isso mesmo. CASTIGADA. Eles olhavam para mim- parece que estou vendo-apontavam para a porta e chamava o coordenador de turno, “seu” Amilar. Ele vinha com aquelas mãos imensas, unhas sujas, e segurava meu braço murmurando: “não tem jeito”, e me conduzia até a biblioteca. Eu era a pessoa mais feliz do mundo! Quantas letras, quantas palavras, quantas frases, quantas histórias!
            Li muitos livros tecendo essas traquinagens. Fui absolutamente feliz nesse meu castigo. Tornei-me um ser apaixonado pelas letras. Para mim, letras são bordados, são pinturas, e são vivas!
            Nessa época eu já estava no “ginásio” e podia escolher entre aula de Educação para o Lar (rsrsr), Técnicas Comerciais ou participar do Orfeão. Sem demora pra escolher, sem perguntar aos meus pais, não hesitei em adentrar àquele lugar mágico que era o auditório (Senhor! Esqueci o nome!). Pela primeira vez vi um piano de cauda. Pela primeira vez vi aquela que desenhou, definitivamente, o que eu queria fazer na vida. A minha frente estava uma mulher baixinha, com os cabelos muito finos e raros parecendo ter uma espécie de enchimento. Ela era uma personagem. Regia com o corpo, com os olhos com a alma. Ela estava ensaiando um tributo a Vinicius de Moraes. Eu estava sentada assistindo aquilo como se fosse explodir. As palavras... as palavras saíam do papel e estavam reverberando naquele espaço. A palavra ganhara corpo, ganhara melodia. A palavra foi transformada em TEATRO.
            Ela começou a reger a canção “Eu sei que vou te amar” do Tom Jobim. Chorei. Ela perguntou se alguém sabia o soneto de Fidelidade do “Poetinha”. Ninguém se moveu. Foi assim que vi, pela vez primeira, tapetes vermelhos se estenderem diante de mim. Com toda emoção e fé cênica - hoje eu sei que é isso - eu fiquei de pé e disse liricamente comovida:

“De tudo, ao meu amor serei atento antes
E com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”

            Fiz parte do Orfeão até me formar no curso de Normalista. Depois, na FAFIC, participei do Coral. O canto coral nunca mais foi o mesmo. Transformávamos letras de música em texto, construíamos diálogos com refrões, enfim, dávamos à literatura o valor de seu papel que não é o de ser somente disciplina, mas de ser arte.
            Sendo assim, a pretensão é analisar um texto literário tendo como foco seu eixo dramático. Para isso escolhi as Cinco cartas Portuguesas de Soror Mariana Alcoforado. São epístolas com teor mais teatral que pude ver na vida. As palavras saltam das páginas e ganham vida diante do desespero de uma mulher que é vista como santa, por ser uma abadessa. Que sendo freira é rapidamente estereotipada como a virgem Maria, mas que no fundo fora uma mulher que pecou como Eva. Que se deu ao desfrute de “comer” do fruto proibido. A partir daí foi criada a primeira imagem negativa da mulher, pois ela leva Adão ao pecado. O fruto foi comido pelos dois, mas foi sobre a primeira mulher que fora lançado o estigma da negatividade. As cartas revelam uma condição feminina no século XVII que muito vemos em pleno século XXI.
            A minha pretensão é fazer a análise do discurso dessas cartas para o palco, alinhavando cada uma delas com letras de musica do século XXI para que o espetáculo tenha uma discussão sobre a questão de gênero.
            Fosse um padre que recebesse em sua clausura uma mulher, teria a igreja feito uma grande reforma em suas leis? Só a mulher é direcionada para ser casta?
Quero conduzir o trabalho defendendo a arte da palavra, defendendo a literatura como linguagem artística, rica em sentidos e sonoridades, rica, sobretudo em imagens que podem estar dramaturgicamente em cena.
            Os sentimentos que permeiam as cartas são explícitos: saudade, abandono, medo, tristeza, solidão, paixão, carne, súplica, desespero, esperança.
Essa temática do amor não correspondido, do abandono não é inerente a um determinado período, mas manifestado em diversas épocas, cantado e interpretado nos palcos e bares da vida. Não há preocupação em imprimir características literárias em suas epistolas. A preocupação é a de se fazer ouvir, a preocupação é gritar por esse amor, é ser o objeto de desejo para aquele homem a quem se entregou.
Que saibamos nos construir e nos desconstruir apesar dos equívocos sobre a potencialidade dos gêneros quanto os seus afetos.

terça-feira, 31 de julho de 2018

MEU OLHAR SOBRE O CERRADO





Nasci em outubro, em um fim de tarde matizado pela primavera, mas sem vontade alguma de sair do conforto do ventre de minha mãe. Fui retirada do meu hotel cinco estrelas por um método denominado fórceps.
Começo essa narrativa dessa maneira pra me fazer entender o quanto esses últimos tempos têm causado estranhamento em mim. O quanto está sendo difícil conseguir entender o mal que está dominando nossa sociedade.
Há tempos sinto-me estranha no meu habitat.Coisas da idade- acho-. Decidi então sair e conhecer um lugar que parecia me chamar para essa descoberta desde a década  de noventa.
Atrevi-me a esse descortinamento.Comprei passagens, fiz pesquisa, arrumei bagagens,tracei trilhas- não necessariamente nessa ordem- e  comecei a me despedir de um ser que estava habitando o meu ser e que não fazia parte de mim. Havia sido tomada por uma tristeza infinita,um descontentamento primário, uma saudade nostálgica do que já havia matado,mas que , de fato, não havia morrido.
Fui... Ir é sempre uma estratégia para voltar a nos conhecer, a nos reconhecer, a nos reamar, a nos perdoar.
Nessa imersão tive uma série de surpresas, passei por estágio de desespero -um amigo "voltou para casa" e não pude estar com minha mão sobre a dele, como prometi. Ao saber dessa notícia,corri para a Catedral de Brasília. Adentrei naquela coroa vista de fora e fui recebida por um canto gregoriano que me fez chorar por tempos indefinidos. Anjos imensos cortam o "céu" daquela igreja. Eles possuem o mesmo tamanho, mas as distâncias em que  estão pendurados os tornam proporcionalmente diferentes. Rezo. Rezo enquanto choro. Rezo enquanto brigo com Deus. Rezo por sabermos íntimos. Rezo pra ter em mim um refúgio. Rezo para não esquecer das conversas com meu amigo. Rezo e continuo brigando com Deus. Sou tão pequena diante dessa obra. Sou tão grande perto de mim.
Estou em Brasília. Ela me serve de atalho para o lugar que é o meu mundo. Fui crendo nisso. E é.
Brasília foi minha pausa. Meu urbano conhecendo o grande urbano. Mas esse não era o meu caminho. A minha ancestralidade estava mais além. Além até de meus sonhos mais remotos. O cerrado é o lugar mais surpreendente do mundo. Comecei a ver isso pela janela do carro que peguei carona. Sim, isso também estava no pacote, conhecer pessoas e dividir histórias com elas. Fomos de Brasília à Alto Paraíso conversando. Minha primeira carona foi um moço muito afeiçoado, simpático e, como eu, à sua maneira, um  caçador de si.
Chegar à Vila de São Jorge, no Goiás, foi chegar o mais perto de mim e de toda uma história que acredito. A Vila me atravessou, me arrebatou, me comoveu. A Vila colocou vida em meus olhos, bordou risos em minha alma, me religou. Que gente linda habita aquele lugar! Uma gente amoral eu sei, mas até isso é legítimo. São de uma brasilidade surpreendente. Os índios! Como descrever ou escrever sobre? Santo Darcy, bem podia me ajudar. Eles são tão amigáveis, são férteis em seus olhares, são cheios de força que extraem daquele lugar. Pisam na terra com tanto furor   que, certamente, estão nos dizendo que aquele é, e sempre foi o território deles.
Os Quilombolas. Meu Pai! Eles são a nossa verdade, a nossa essência, a nossa descoberta tão existente. Não sei de onde, diacho, eles possuem tanto brilho! Eles preparam garrafadas, remédios da terra, e são capazes de prosear por horas contando suas histórias e nos ensinando beberagens.
Assisti a tantos espetáculos naturais, meditei, mergulhei, ri, chorei, me apaixonei por mim! Que reconforto me sentir de volta e me entender.
Mas qual o porquê dessa minha escrita tão fora de hora? Seguinte. Estava assistindo a entrevista do programa Roda Viva, cujo o entrevistado é o erro que diz ser candidato a presidente do país. Não consegui assistir tudo, pois me recuso ver tanta ódio destilado por um ser tão desprezível. Perda de tempo. Tantas coisas estão na minha mente. Minhas melhores lembranças desses últimos dias reverberam em mim e me fazem lembrar de seres especiais que conheci. Uma gente valente, que acredita na mudança do país. Uma gente que não está em sala de aula para repetir discurso, mas que sabe que é preciso estar atento e forte nos dias de hoje.
Ao assistir a entrevista, percebi o quanto o objeto entrevistado- ele não é sujeito- era a própria expressão do ódio. Então, não pude continuar a ver. Não depois de trazer em mim tanta pureza de um lugar. Não depois de ver um por do sol do Mirante da Janela do Céu, ou de me banhar na Cachoeira Santa Bárbara e cantar pra Oxum, não depois de meditar no Encontro das Águas, conversar com Doroti- uma professora de teatro que trabalha com nativos- , não depois tomar o chá de Dona Cecília- uma raizeira que tem a crença nas mãos- , não depois de me verter em lágrimas com os mimos dados pelo Juliano- fundador da Casa Cavaleiro de Jorge, não depois de ser abraçada pelos quatro mosqueteiros:Allan, Cléverton , Halanne e Jéssica.
São essas coisas. Essas pequenas coisas que fazem morada nessas grandes pessoas que não se deixam coisificar. São humanamente humanas.
Escrevo para que não exercitemos, mesmo diante dessa insana entrevista, nenhuma especie de falso moralismo. Escrevo para que não alimentemos essa truculência e essa falta de inteligência.
A Vila me guiou para uma dimensão em que não posso alimentar o predatório. A vila me ensinou que o meu tempo tem que ser reorganizado, que sou uma heroína, pois disputei uma corrida louca até ser embrião e ser retirada a fórceps.
Essa minha viagem me educou para a fé e para o amor. Eles estavam aqui, mas o velho modelo de consumo, aceitação e urbanidade me turvaram essa visão.
Que eu me retire da sala sempre que o assunto me destorcer. Que eu, você e as pessoas que acreditam nelas mesmas e nos outros tenham o discernimento de fazer do seu tempo um reconhecimento de si mesmo.
Que façamos uma boa viagem!




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Gerúndico



Passei horas escrevendo. Teclava com uma amiga mais que querida, chorava minhas dores, me via feliz com a existência da minha história..vivia enquanto a vida corria pelas minhas veias e meu coração teimava em esquecer de ser confete.
Então, nos despedimos...e fui dar mais uma espiada na postagens. Encontro um poema -que posto aqui-. 
Quantas palavras ficaram pelas portas, janelas e seres daquela casa. Éramos os mais livres seres daquele Farol de São Tomé. Éramos livres em Alcatraz. Rica lembrança. 
Obrigada, amigo. Que bálsamo para minha alma tão gasta. Que grata sou eu por você existir.

O poema que encerra esta postagem foi escrito para uma atriz, para uma intérprete, para uma querida amiga. Ela só vai ficar sabendo quando acordar e ler a mensagem que deixei no seu whatsap.
Certa feita, em Alcatraz, escrevia um poema, depois outro e mais outro. De repente todo mundo naquela casa foi tomado por poemas. Forte a lembrança daquela casa, forte a lembrança de Mário, forte a lembrança de um pedaço de papel contendo palavras de um pequeno poema que começava assim:

Tive úlceras à noite toda
Não tenho mais esse poema, não temos mais Mário, acho que nem a casa existe mais...
Costumava escrever e espalhar meus poemas, já não tão meus, por entre amigos e gente estranha. Carinhosamente suspeito que as metafóricas úlceras foram parar em suas mãos, quiçá no seu coração.
Não importa onde estejam agora! Importa que escrevi este poema gerúndico pra você:
continue
andando
caminhando
pedalando
continue
correndo
continue
falando
cantando
gritando
continue
vivendo
continue
dançando
pulando
voando
continue
vendo
que tudo
fica pra
trás
quando
agente
avança
mais
continue
porque
dor que
não dói
doendo
é morte
na certa
matando
continue
continue
porque
dor que
dói de dor
doendo
é morte
na certa
morrendo
continue
continue
continue
porque
vida se
vive vi
vendo
que tudo
passa
acaba
some
d
es
a
par
ec
e
nd
o
.
Joilson Bessa
Campos dos Goytacazes
18/01/17
Poema escrito para Adriana Medeiros.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

"CATANDO", DE SÃO TOMÉ, AS LETRAS






Há cerca de um mês, mais ou menos, conversava com um amigo sobre conhecer algum lugar diferente nas férias. Ele respondeu que gostaria de ir à Araxá- cidade do interior de Minas- . Achei a ideia fantástica e coloquei-me à disposição para pesquisar o lugar.Tudo certo até aí. Tudo certo se eu não me encontrasse com outro amigo e dissesse pra ele que iria conhecer São tomé da Letras em algum fim de semana do feriado. Ele prontamente disse que adoraria conhecer São Tomé... De onde tirei isso? A cidade em questão não seria Araxá? Que diabo me levou a trocar o nome da cidade? Que colorido buscava minha alma quando me traiu de forma tão inusitada? Talvez estivéssemos todos traçados pelo cosmos a ter um encontro com aquele lugar. Talvez no fundo, no fundo apenas eu tivesse tatuada em minha memória alguma informação a respeito do magnetismo daquele portal.
Vou tentar narrar a nossa saga desde o momento da nossa saída. Nos encontramos por volta da 5;30h e tomamos o nosso caminho.Na bagagem, além de roupas, eu levava um embrulho dentro de minha alma, um sentimento que desejava não mais sentir ou carregar,mas havia me feito a promessa de deixá-lo pelo caminho tamanho tempo que ele fazia morada em mim. No carro ouvíamos música cubana, conversávamos e riamos dos cachorros que estavam conosco na viagem. A vida na estrada me encanta.De certo é essa cigana que habita meus espaços e que implora sempre por uma paisagem novidadeira. O caminho é lindo. Enquanto amanhece podemos ver as montanhas sendo desenhadas à "modi" perder de vista. Não há nada no mundo melhor do que a sensação de liberdade que compartilhamos em uma descoberta de destino. A felicidade transforma-se  naquela coisa meio clandestina, meio feita em horinhas de descuido. Estávamos alimentando nossas expectativas. 
Falar de todo o trajeto seria um engodo. Há coisas mais interessantes a serem descritas. Penso. 
Seguíamos um amigo muito amado que levava com ele um GPS e, o mais importante de tudo,um copiloto. Não nos perdemos- não na ida-, atravessamos uma estrada que mais parecia um rally,mas sobrevivemos . Paramos em uma dessas "birosquinhas" de beira de estrada. O cheiro de verde tomava conta do ar, o âmbar da terra e o azul do céu bordavam minhas retinas e eu ia aos poucos me livrando do peso. 
Pedimos uma cerveja.O sotaque do dono do estabelecimento nos dava a certeza de que já estávamos em terras mineiras, sô.
Mais um trajeto percorrido até a nossa entrada na pequena , montanhosa e poética São Tomé das Letras. 
Confesso que fiquei um tanto quanto surpresa. Aquele lugar não cabia em meus olhos. Há uma magia só entendida aos que se atrevem a passar uns tempos por lá. 
Comer em São Tomé, é algo de respeito. Tudo tem um sabor tão mágico que, afirmo,  a gente sofre algum tipo de sortilégio ao experimentar as iguarias do lugar. Pense em um lombo suíno de fazer ajoelhar, um peixe com um molho de palmito, uma salada dos deuses, galinha com ora-pro-nobis, oiro da beira e, ao fundo, a melhor cantoria do mundo. Jamais ouvira tantas boas canções em um só lugar.
O noturno da vida de lá é de busca de clarões no céu, um aperto na erva, uma música sem sentido tocada por uma gente que não se veste, mas usa figurino. No alto da pirâmide- lugar que possui uma energia indescritível- várias pessoas se aninham esperando por algum extra-terrestre, ou sendo elas mesmas seres de outras "dimensiones".
Caminhar por lá é como sair em busca de si mesmo. No caminho colorido e cheio de subidas as nossas injurias são dissipada...deixo mais um pouco do peso. 
Quando finalmente se chega à cachoeira, um mundo de águas rasas nos entorpece. Sou de Oxum com Oxóssi,logo, estava tão emoldurada pelos meus Orixás que fiquei em silêncio nesses lugares que fizeram minha alma gritar por dentro.
Na gruta há uma espécie de condensação que não sei explicar, mas que me fez perder mais um pouco do  peso.
Na ladeira do Amendoim os meninos brincaram e eu ri. Abraçamos Ventania na varanda e Raul achou Adriano esquisito. Somos esquisitos todos nós. Mas não lá. Lá somos iguais. Somos iguais em nossa Krisna dança na sala, no nosso riso farto, no nosso perdão,nas nossa lágrimas,nas nossas buscas e dúvidas. Somos sonhadores em lugar de sonhos, de arte e artesanato, de suco de iogurte com limão, de abraços inesperados. de despertador de maritacas de esperança. Lá o tempo, Carol,passa como se, de fato, 2016 tivesse acabado... Só que não. Fui atropelada por dois golpes ainda lá. Um esvaziei. Tenho essa súbita capacidade de me reinventar.Outro...bem..vou deixando aos poucos pelo caminho. 
Agora, apenas PARE. Vou catar de São Tomé as letras pra gente poder com elas brincar.
PS: Tô quase leve.  



domingo, 30 de outubro de 2016

DAS LEMBRANÇAS MINHAS DE ALGUM DIA.




Estou acumulada de lembranças. Lembrar deixa a gente nostálgica e nos embriaga de tristezas, de alegrias, de tempos soltos em nossa memória.
Fui uma criança feliz, acho.Vivia em uma casa com um quintal cheio de árvores e um aroma de possibilidades que permitia o sonho futuro com esperança de eternidades.
Sou ocidental e isso me tatua na alma um romantismo irrefreável. Minha mãe sempre foi um ser especial,as proibições pouco ocorriam, éramos livres e isso fez com que eu não visse "maldade" em muitas coisas. Sou meio Pollyanna ainda.
 A vida era pontual como o abacateiro que imperava no terreno onde eu corria alvoroçada pelo vento que rodava as minhas saias já usadas naquela época. Meu vô era um negro lindo,vestia calças e camisas  de linho e nos pés calçava tamancos doutor scholl. Ele não morava no terreno dos sonhos,ele tinha uma casa grande com pé direito alto, janelas verdes imensas e quartos que tinham saídas para todos os outros cômodos da casa. Visitar meu vô era como ir à Disney, lá era meu melhor brinquedo.
Lembro- me hoje de um dia do ano de 1975. A novela Gabriela estava sendo transmitida pelo canal plim-plim. Na minha casa eu assistia a todos os capítulos. Minha mãe não esculpia um olhar malicioso,logo assistia aquele folhetim com naturalidade, Mas na casa do meu vô a coisa não era bem assim. As tias velhas diziam pelos corredores que era uma pouca vergonha as cenas que eram exibidas. Eu não entendia direito aquela conversa,pois não via nada de escabroso naquelas imagens. Quando eu ia pro meu "parque", levava uma sacola com algumas roupas e nenhum brinquedo,pois sabia que as invencionices de meu vô eram as melhores chances de ter o novidadeiro.
Ele me acordava com as pontas dos dedos em meus pés, fazia sinal de silêncio levando o dedo indicador à boca e seguia para a cozinha que era enorme e tinha um fogão à lenha onde eram preparadas algumas delícias e a comida dos cachorros, não havia ração na casa de meu vô. Adentrávamos aquele espaço tão sublime para minha vó. Sentávamos e fazíamos dezenas de bolinhas com os miolos do pão,colocávamos em uma bacia e íamos  para a calçada esperando que os passarinhos viessem comer em nossas mãos. Essa é uma cena que flutua em minhas lembranças até hoje. Eu voava com eles, subia em árvores, corria pela rua, roubava mangas e nessas peraltices ouvia meu vô rir e dizer que eu parecia uma moleca. E era.Não entendia, como não entendo até hoje, essas diferenças que apontam para os gêneros. Menina brinca de casinha, boneca e meninos correm,sobem em árvores e se arriscam. Eu podia tudo.Só não sabia que não poderia assistir ao capitulo daquela noite de uma novela que eu entendia ser ficção.
No final da tarde minha mãe sempre voltava para me pegar, mas eu queria era dormir na casa grande. Fiquei. Tomei um banho- de bacia- Meu Deus! Lembrei desse detalhe agora.Tomávamos banho em um abacia imensa...Não consigo lembrar o porquê de não ter chuveiro...
Enfim, veio a noite e todos estávamos na sala de televisão.Meu vô e vó estavam um ao lado do outro.Ele com um pijama de listras azuis e ela de camisola branca. Ambos calçavam meias e eu via os seus pés juntos sobre a banqueta. Passava o jornal nacional e a reportagem era sobre a extensão do território brasileiro e o fim da ditadura. Assistia aquilo sem me dar conta da grave importância,pois o que, de fato, me importava era assistir ao capítulo da novela. A vinheta final do jornal fora exibida e eu me ajeitei no sofá ao lado do meu vô.Estava cheia de expectativas quando uma das minhas tias diz pra eu ir pro quarto, pois aquilo não era coisa para criança assistir.Enlouqueci. Como assim eu não podia assistir aquilo que fiquei esperando o dia todo? O que poderia ser mais feio, avassalador e cruel que o jornal nacional questionando o direito às greves? Não, eu não podia aceitar aquilo. Olhei para o meu vô como que pedindo para ele interferir naquela bobagem...nada.Mas ele fez um gesto com os ombros que na minha leitura era o seguinte: "dá seu jeito".Entendi. Fui para o quarto, que tinha uma porta que dava para a sala e cuja fresta me permitia assistir a novela, coloquei um lençol no chão, deitei e dali pude ver ao capitulo proibido. Enquanto assistia a novela, me questionava a causa da proibição. Não via nada demais. Gabriela- personagem interpretada por Sônia Braga-subia em um telhado para pegar uma pipa. Eu, mais cedo subi em uma mangueira. Os "fundilhos" dela apareceram, os meus também.O que havia de tão terrível nisso? Continuava sem entender... Assisti o capítulo até o final e quando olhei para o lugar onde estavam meus avós, vi a cena mais erótica daquela noite. Meu vô e minha vó roçavam distraidamente os pés um do outro e naquele balé eu pude ver que as pessoas só viam o obvio e que eu conseguia entender e ver a vida em seus pequenos gestos e detalhes.
Erótico não era o ato de Gabriela subindo no telhado. Erótico era a cumplicidade dos amantes naquela sala em que a Bahia revelada na tela de TV, era o Salvador do gestos que poderia traçar as preliminares de um ato imortalizado por aquilo que ouso chamar de amor.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016


Quando eu nasci,
Uma Oxum Apará,
Dessas que nascem
Da união entre Xangô e Obá
E carregam espelho e espada nas mãos,
Disse: Vai ser artista/poeta na vida!

Não sou tão poeta
Mas sei interpretar
Visto-me de ouro e rosa
Sou calma e agressiva
Depende daquele que me encarar

Aprendi a ser como os bambus
Das cercanias das cachoeiras
Envergo, mas não me dobro.
Temo as coisas que não vejo
Combato cada uma com a espada
Que me foi dada e deixo meu inimigo
Olhar no espelho de meus olhos
E saber que, pra mim, ele não vale nada.

Danço pra quem quiser
Sorrio como o rio que passa
Sou de Ogum a mulher
Em meu corpo reina Iansã
Seis meses guerreira
Seis meses Oxum em sua doçura
Mas não me venha com branduras
Nas águas dos rios, sei mais que nadar
                                                                                                            
Eu podia fazer de mim outra escrita
Esconder-me em templos mais aceitos
Fingir ler uma gênese que não decifro
Mas esses mistérios
Mas esses tambores
Esses oris
Abadás
Pombas Giras
Pretos Velhos
Exus
Pontos e Panos
Me deixam girando
No mundo
Fazendo uma África dentro de mim

Oré yeye ofideriman!


   


Hora certa:

Faça parte da familia: