terça-feira, 7 de maio de 2013
DEIXA FLUIR
Difícil depois de um hiato, nada breve, voltar a alimentar esse rapaz com minhas divagações.
Esta é a minha primeira postagem do ano, esta é minha primeira vontade de escrever aqui, no blog, nesse 2013, que já foi de tantas duras perdas e sábias intenções.
Talvez não tenha escrito por falta de honestidade ou pelo excesso da mesma. Talvez por não me sentir afinada em algumas canções ou simplesmente por achar o mundo pouco matizado por um tempo.
Começo a postagem querendo dar explicações ao que não me é cobrado. Por quê? Sei lá...Por falta de assunto, por não saber por onde começar ou para, simplesmente, começar.
Viajar sempre foi meu maior prazer. Conhecer lugares e culturas diferentes, entrar em contato com um habitat ímpar, conversar com matutos e especialistas em "um tudo" como diria minha vó. Fiz , em janeiro, uma viagem a Salvador. Conheci uma gente alegre e educada, diferente de como me pintavam. Emocionei-me com tudo. Chorei com a casa de Jorge Amado, com os terreiros que visitei no Pelourinho, com as igrejas que são indescritíveis e com as ladeiras que subi e desci. Emocionei-me com a capacidade da natureza de nos presentear com coisas tão inusitadas e belas. Nenhum por do sol se compara ao de lá ( perdoem-me os Ipanemenses), nenhuma gente é tão colorida, tão hospitaleira. Senti-me em casa.
Descansei minha alma e ri de mim e comigo nos momentos de ilusão. Mas houve algo que me deixou muda, calada, introspectiva. Em uma madrugada, em Salvador, morri um pouco. Nessa madrugada em que estava chegando de um bar, morri diversas vezes. Penso que tenha sido esse episódio que me fez podar a escrita, que me enlouqueceu de medo, que me fez ver o quanto somos tênues, rápidos e fugazes. Nessa madrugada, em Santa Maria, jovens da idade do meu filho, da idade dos amigos do meu filho, da idade que já tive e fazia planos para um futuro tiveram suas vidas ceifadas pelo descaso... Não vou repetir o que foi dito durante todos os meses que se seguiram após essa tragédia. Não se faz necessário. Escrevi porque, certamente, a minha escrita sofreu um trauma, não queria escrever sobre e não queria falar da minha felicidade. Havia eu dado uma "morrida" também.
Fico pensando nos pais desses jovens, nos amigos, em quem esteve lá e conseguiu sair. Fico pensando em como é feito esse rodízio da humanidade e, ao pensar nisso e em tantas outras coisas que o tempo nos aponta, penso que muitas vezes por descuido não cuidamos, por preconceito nos privamos, por excesso nos diminuimos. Não quero nunca, nunca me arrepender de não ter me doado, não ter perdoado, não ter beijado, não ter me encantado. O tempo de estar é agora. Amanhã é um dia que pode ou não existir. Ser é viver em cada ínfimo segundo com vontade e crença de que esse é o melhor instante e que ele não se repetirá.
Tá louca essa mulher? Não, está se deixando rejuvenecer. Quianto tempo será essa duração? O tempo que durar. Vai valer a pena? Sempre vale a pena quando a alma não é pequena...a minha é capaz de se multiplicar.
Lá vou eu de novo para um novo começo!!!
Não posso carregar traumas e medos, tristeza e desamor. Careço de conversas com humor, olhares de luz, lições de meninos e manter toda a minha alegria revitalizada. Preciso deixar-me "fluir" nesse tempo que não é quando, mas é agora.
sábado, 29 de dezembro de 2012
LUZ NEGRA
Talvez esta seja minha última postagem do ano que se finda. Talvez não. Talvez o ano nem termine...talvez eu traga as mesmas dúvidas que você. Talvez não. Os próximos dias serão iguais, feitos de dúvidas e de razões, de esperanças, insônias, inquietações e achismos. Escrevo e escuto Dolores e suas dores, Nelsom Cavaquinho e seus apelos de amores pra serem esquecicidos.Há uma súplica em ambos que me entristece por tamanha beleza..."ninho de amor vazio" dói, mas nos faz ter a certeza de algum instante ocupado e possíveis futuros/presentes guardados. Escrevo, leio, faço outras coisas enquanto isso e dentro disso rio e choro me despedindo dos dias do ano que se vai e vai... e fica em mim a certeza de que muito ainda não mudou, muito ainda é ressaca, muito ainda é fantasia por vir, muito é muita de muita saudade que, se fica, é porque foi presente.
Sinto-me introspectiva olhando a cara dos dias que se foram. Gosto desse momento meu de solidão e compania de mim para mim, mas me dobrei aos instantes que me foram ou me eram sem que nunca tivessem sido de fato, saca? Uma certa ironia do destino que traçamos e que alguém nem viu. Há algo no fim do ano que me remete ao meu dentro que já "tá por fora" para muitos e , ainda assim, me vou para a próxima temporada de competições, desilusões, pois a vida, também , é feita desse tipo de atropelo e /ou afago que trago no meu intervalo de vida.
Preciso enfrentar a piaração dos dias futuros. Preciso ser artista no palco, realista na vida e eu mesma nos dois lugares. Trabalho hercúleo, acredite, pois há em mim mulheres que só eu conheço, não porque me escondo, mas o outro nem me dá tempo de me conhecer devido ao fato de que quer muito , mas sem o trabalho da conquista, do desvendar, do aprimorar , do se afinar.
Hoje , mais que sempre, mais que nunca estou desenhada de música e , acredite, a melhor de todas delas.
Deixo pra você o que me invade, o que me faz calar.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
LEVE COMO UMA MENINA
Há tempos eu e uns amigos nos reunimos no dia 27 de dezembro pra a nossa virada de ano, pois sabemos não ser possível fazermos isso juntos no dia 31. Hoje foi mais uma vez especial. Grussaí estava linda!! A lua clareava de tal forma a beira mar que dispensava fogueira para o nosso encontro.Estávamos emocionados e sensíveis com tudo que nos era, ali, revelado de maneira simples, porem sublime, entende?
Nunca fui um ser que acredita na capacidade de lidar com a vida de maneira solitária- dá pena ver gente assim-, gente que centraliza, defende como seu o que é do coletivo. Nesse nosso encontro- de almas- fazemos uma retrospectiva do ano que se finda, agradecemos pelas coisas conquistadas e repetimos pedidos que não nos foram aceitos e invocamos, coletivamente, amor, saúde, prosperidade e trabalho- para que possamos realizar sonhos de consumo, pois não há outra forma de conseguirmos.- Depois dançamos e rezamos as orações que nos foram ensinadas desde pequenos e que, com o tempo, ganham a força que precisamos. Aproveitamos e comemos frutas para manter o corpo em sintonia coma alma e por fim nos abraçamos e desejamos que a luz esteja com cada um de nós diariamente.
Acabei de chegar em casa com o espírito leve e fresco como de uma menina. Cheguei em casa pensando em tudo que conversamos, nos amigos que não estão mais comigo e que se foram pra terra do encantado e em tudo que vivi até aqui. Enquanto escrevo um filme passa em capítulos na tela de minha memória e eu descubro o quanto a vida está sendo generosa comigo que quase deixei de crer que fosse possível encontrar alguém que enetendesse meu silêncio e minha intenção, que não parece ter a estranha mania que tem as pessoas de querer nos modificar. Que também busca o outro, o diferente e não o próprio reflexo. Eu confessso que busco o leve, o espontâneo, o carinhoso, o viajante, o garoto, o que não veio com uma fórmula, que respeita meu relógio emocional e jura sentir saudades de mim e dorme junto comigo, dividindo travesseiro, e que chegou rápido e está...
Agradeci muito por tudo, mas sobretudo agradeci pelo meu encontro comigo, pela minha relação com meu filho e família, pela beleza que são Pedro e Mariana e pela fidelidade do meu irmão. Agradeci pela sua aparição em minha vida, Preto, pela nossa troca e calma, pela nossa espera e vontade de tentar. Agradeci aos amigos- raros- que tenho e pedi perdão por me deixar enganar vez ou outra, mas aprendo com isso. Agradeci pela vida que é exatamente como construímos e ao meu incansável coração que teve a chance de se encantar mais uma vez.
Feliz 2013!
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
SÓ PRA VOCÊ
Sou aquela que permitiu
Que sua vida esbarrasse na minha
Que cultiva teus versos, sambas e fantasias
E se faz imortal para o valente moço
Que me liberta a alma
Sou pérola da tua concha
Corte da tua espada
Que na bainha ainda se guarda
Os segredos, em mim guardados,
Estão perto de ser revelados
E se fazem guerra...
É somente pra te encontrar em paz
Sou alguém que quer ser enlouquecida
Que reza por massagem nos pés,
Um banho de banheira,
Uma festa de uma noite inteira,
Que quer ver respeitado o choro
Que tem calma e riso no gozo
Que sempre quer mais
- não sou dada à migalhas-
Se você grita comigo
Automaticamente revido
-às vezes em silêncio-
Desaforo é coisa pra não se levar
Detesto constância...preciso de saudades
Para alimentar minha escrita
Meu cabelos foram feitos para serem despenteados
E minhas costas para serem, publicamente, alisadas
Logo, abuse desse sortilégio
Minha vida é só minha
Mas posso alinhavá-la na tua
Acredite nas minhas hipóteses
Respeite meus estágios de solidão
E só retorne se eu pedir
Gosto de mãos... gosto demais
Ah! gosto mais ainda dos caminhos
Que elas descobrem em mim
De pescoço...gosto, gosto muito
De boca e saliva gosto mais
Gosto, irremediavelmente, do conjunto que me toca
De pernas, bunda, dedos, olhos, olhares, promessas e olhar..
Se gostar de leitura, faço até jura
Se acreditar em espíritos, sou capaz de levitar
Se não entender nada disso...
Basta brincar de me encantar
Que eu te encanto e juro...não te deixo recuar.
Das Preta.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
QUE TAL UM SALTO!
Tenho a estranha mania de ficar procurando causos por onde passo. Às vezes estou dentro de um ônibus e me quieto para escutar as conversas que giram ao meu redor. Pois ontem me aconteceu algo diferente e talvez surpreendente em um mundo que parece dar pouca atenção ao olhar. Andava pela rua e atrás de mim caminhavam dois jovens rapazinhos. Em determinado momento um pergunta ao outro:-"E aí, mano, como estão as coisas com ela?-" "- Cara, você não vai acreditar....quebrou o gelo. Acabou aquele ar de superioridade. Ela me mandou uma mensagem de madrugada dizendo que estava feliz pelos dois meses de namoro e que estava muito encantada com tudo! nem consegui dormir. Agora vou esperar sair o dinheiro do show do SESC e comprarei um presente pra ela.-"
Bastou. Não precisava ouvir mais nada para saber que o rapaz fora tocado por uma paixão, por uma espécie de festa que só acontece a quem não foge dos precipícios e não tem medo de saltar. Minha alma ficou alvoroçada, pois ouvir o relato, sem medo, de um menino com outro, na rua, é simplismente saboroso, é poder acreditar, novamente, que há em toda a gente a vontade de estar junto, de agradar, de ser "fofo". Tive uma intervenção no meu olhar que já estava acostumado a não ver nada de tão poético e natural. Há poesia nisso que assisti. Há uma coisa meio heróica também, pois nesses dias em que se manifestar amorosamente é piegas, ouvi um menino dizendo, no meio da rua um, quase, euteamo- junto mesmo.
Depois voltei um tantinho ao tempo e me lembrei da passagem que ele diz:"sair o dinheiro do show..." Artista! Tinha que ser! A emoção é outra! Gente desse time joga de verdade, não se esconde covardemente, não tortura, não denigre. Gente assim respeita, e muito, a decisão alheia, não invade, deixa que percebam suas crenças, descrenças, indecisões e tudo que as empurra ou paralisa. Gente que é artista é verborragica, é confessional, é mais autêntica. Ele é!
Depois disso fui brindar comigo. Entrei em um bar suspeito e fiquei a chorar de amor, vasculhar frestas, entorpecer-me de àgua. Nos últimos dias tenho me conhecido melhor, e acabei descobrindo que, à revelia de alguns, gosto de quem sou, e por isso volto pra mim com algo novidadeiro, com sentidos mais alertas, e com uma leve sensação de que já fui tarde, mas só volto porque fui.
Onde eu quero chegar com isso? No menino que despertou meus ouvidos e meu olhar, que me acumulou de poesia e me fez ter uma vontade enorme de, sem medo, ter o mesmo precipício que ele, e saltar junto. Que tal?
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
NÃO É.
Raramente sinto -me sozinha. Tenho a estranha mania de me povoar de sonhos e de eternizar minhas ideias, mesmo quando dependo do outro para que as possa cumprir.
Sempre afirmo que tenho muita preguiça de sofrer e que acho tedioso amar sozinho,acho um absurdo ser ignorado, ser destratado, mas há uma gente com disposição para te fazer isso. Bem, comigo não funciona, pois arrumo minha bagagem de mão e parto para uma nova história e vivo de maneira tão intensa que o que era intenso fica raso -como deveria ser e a gente não viu- e o que é novidadeiro ganha um urdimento tão maravilhoso que torna-se impossível se sentir desamparado.
Minha solidão é sempre "mini", pouco elástica e cabe perfeitamente em mim. Não combina comigo me entrevar e faço, sempre, piadas de minha vida, tenho um humor que me conforta e a minha boemia auxilia nisso com graça e satisfação.
Estava meio sem ar por aqui e, decidi, fazer um passeio, acender um cigarro e me deixar levar. Decidi não me permitir afetação do isolamento e nem sair por aí como se estivesse em estado de balada.
Me dei permissão e aproveitei o fim de samana para uma análise profunda de meus desejos. Descobri que, às vezes, a angústia nos habita por sermos parceiros dela e acabamos cultivando como doença aquilo que pode ser tratado como reflexão. Depois de muito pensar e pensar resolvi colocar sobre minha pele um vestidinho curto e leve e buscar a Lapa e suas nuances, e seus performáticos botecos e sua gente afinada e dona de" um sei lá o quê" que me encanta.
Eu já havia gostado e muito de tudo. estava tão acostumada comigo que me reencontrar naquele espaço foi presente. Dancei, cantei, me encantei e me deixei enamorar. Nunca foi tão rápido, tão casual, tão sem paranóia e tão doce...
Estou de volta para mim. Sem mágoas, sem dores, sem culpas, mas sem um certo entendimento que, sei, o tempo me revelará. Guardo em mim alguns questionamentos que talvez nunca tenha respostas, mas encontrei uma...Simplesmente não foi. Nunca foi. Era apenas o que gostaria que tivesse sido, mas não é.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Oh! Poeta
Como és inquieta
Vive colocando
Seus versos em linhas
Tensas e adimiráveis
Aquieta-te a alma
Descansa teus pensamentos
Acalenta teu sono
Ele clama por um minuto
De silêncio
Oque fazes com teu corpo?
Não sabes que ele é o templo de tua alma?
Relaxe, mergulhe no oceano
Namore com as nuvens
As flores te esperam
As rosas querem te desenhar
Serias um belo jardim
Pensa! Quantos espirítos contemplariam-te
Hoje é apenas uma passagem
As horas se vão
O relógio não para...Eu sei
Vamos tecendo nossos sonhos aqui
Nossos desejos clamam liberdade
Querem criar asas e voar, voar e voar!
Não perdeste o contato com nada
Tu respiras
Sente
Cheira
Tem sede
Fome
Onde está acomida, agora?
Perdestes os sentidos
Tua ânsia freia o imaginário
Vem!
Como és inquieta
Vive colocando
Seus versos em linhas
Tensas e adimiráveis
Aquieta-te a alma
Descansa teus pensamentos
Acalenta teu sono
Ele clama por um minuto
De silêncio
Oque fazes com teu corpo?
Não sabes que ele é o templo de tua alma?
Relaxe, mergulhe no oceano
Namore com as nuvens
As flores te esperam
As rosas querem te desenhar
Serias um belo jardim
Pensa! Quantos espirítos contemplariam-te
Hoje é apenas uma passagem
As horas se vão
O relógio não para...Eu sei
Vamos tecendo nossos sonhos aqui
Nossos desejos clamam liberdade
Querem criar asas e voar, voar e voar!
Não perdeste o contato com nada
Tu respiras
Sente
Cheira
Tem sede
Fome
Onde está acomida, agora?
Perdestes os sentidos
Tua ânsia freia o imaginário
Vem!
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Os Três Mal- Amados
Não sei se agradeço, não sei se peço perdão, mas a noite de ontem foi de reencontros. Fiz um estágio na nossa terça sem lei. Fui, mais uma vez, fora da lei. Me beijei inteira, fui abraçada e alvoroçada pelos que não via há alguns meses e descobri que estava com muita, muita,muita saudade de mim. Falei , falei, falei muito e descobri que minha fala estava contida, reprimida...por mim, pela minha doidice de querer parecer sã- rsrsrrs- e lá veio meu velho Demo pra me fazer , mais uma vez, perceber o óbvio- coisa pra outra postagem-.
As conversas- muitas- até quase agora- como sou irresponsável quando feliz- me fizeram repensar tantas das muitas coisas. Fiquei querendo saber onde eu me enfiara e não descobri ainda, pois acho que estava dando uma morridinha de mim só pra me acordar assim com uma certeza, quase absoluta, de que posso ser eu mesma e me deixar fluir...
Nas conversas que permearam a noite, madrugada e alvorada muitas poesias saltaram de nossas bocas, muitas músicas foram relembradas e dançadas- nossa!! como estava precisando dançar- muitas loucuras foram abençoadas e dentre elas apareceu uma poesia do João Cabral de Melo Neto que me fez perceber o quanto me desviei de mim e a causa disso que , hoje, não é mais. Confuso não? Mas eu entendo e isso basta.
Os Três Mal-Amados
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
Valeu Nanda ! Valeu pelos poemas, pelas músicas, pelo riso fácil, pelo encontro com todos...Valeu!
terça-feira, 27 de novembro de 2012
NÃO FOI NADA
Vou ensaiando versos para minha próxima invernada.
Perdi a hora e a palavra
Perdi o contato com minha escrita.
Estou calada
Boca
Peito
Sexo
Tudo se cala e me convence
- não foi nada-
Estou sendo boicotada por mim
Não gosto
Ser intesa tem seus rasos
Suas tramas e insatisfações
Vejo meus planos futuros
-quando não há futuro-
Se estilhaçarem,
Batendo em meus comodos internos
Fazendo uma mudança
Sem me dar satisfação
Eu mesma financio essa, quase, tortura
Eu mesma pingo em minha testa
Gotas de descaso
Sei que não há acaso
Mas eu não vou me comover
Quem saqueou minha alma
Abandonou o caminho
Robou-me o senso
Atropelou minha serenidade
Certamente, pedirá minha calma
Não vou revelar
Nada
Não vou intitular nada
Vou tecer novas e antigas jornadas
Em mim
Para mim
Que não me abandono
Pra mim que fez passeio
Com um cão sem dono
Cão que me latia ilusão
Cão...
Os estragos estão na cara
Os desperdícios estão na alma
Vou me deixando congelar
O Diabo, que mora em mim,
Envelheceu um tanto mais
E ele só é Diabo porque velho
E o cão, certamente, me dirá
- não foi nada-
Ainda nem sei o que perdi
Ainda não sei se perdi
Talvez, no fim
Eu tenha ganhado
Perdi a palavra
O som de meu pensamento
o ruido sensual de um click
Depois ganhei a nova estrada
Onde tenho que me doar
Na minha suite
Na minha, estou fechada
Calada,
Acordada.
Não há culpados, nem vitimados
Apenas o sentimento que me habitou
Vagou sozinho por um tempo
E de remexer meus conceitos
Me fez enchergar seus defeitos
E hoje, aqui, onde ele - o quase nada-
Já habitou
Restam frascos e comprimidos
Ficam em meu cardápio
As refeições que necessito
Suor,
Lágrima,
Gozo e
Sangue
O meu mundo pode até ruir
Mas que seja como água
Pra eu me reconstruir.
Seguirei cumprindo
Minha sina
E no fim
- não foi nada-
Das Preta.
PS: Para minha querida e sincera amiga cheia de "brutalidades", mas que sabe, como ninguém, me escutar e me fazer repensar e dizer minhas verdades mesmo quando não as quero ouvir.
Pela conversa de ontem, pelo o encontro de sempre.
Valeu tudo Nanda. Vale eternamente.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
COMO ANJO
Preciso ficar acordado
Pois assim eu velo o teu desejo
Contemplo a sua loucura
E desperto o seu equilibrio
Apenas me retraio aos teus encantos
Por entender não pertecerem a mim
Encantos sedutores e vorazes
Não quero ser um barco à deriva
Em seu oceano
Ainda sou o comandante dessa embarcação
Sou seu anjo protetor
Preciso ficar acordado e atento
Sua alma sempre se desprende para voos matinais
Por que essa pressa??
Onde quer chegar? Pra que se enganar?
Sou ainda menino, travesso, mas menino
Fico espantado com seu volume de ideias
Ainda estou aprendendo a dialogar com sua alma
Espere um pouco
Deixa eu respirar
Preciso voltar a manter o leme
Pra você não se afogar
Avisto os corais
Ou será um grande iceberg
O coração de quem não soube te amar?
Morena com o olhar de sereia
Tu és mais envolvente que teu próprio canto
Preciso ficar atento
Você às vezes me parece triste
Escreve triste
Exala uma certa busca
Daquilo que não existe
Mas isso é só pra chamar minha atenção
Já te disse preciso retomar o leme
Pra te presentear
Pra que não percas mais
O comando de teu barco
Para que não abandones os marujos dessa viagem
São eles que guiam os sonhos...
Preciso ficar acordado
Não posso dormir
Entende...
Não posso ser teu empréstimo
Pois o saldo, pra mim, está negativado
O mundo está prestes a acabar
Como pagaria e em seguda devolveria-me?
Mas façamos um trato
Isso eu faço
Juro!!
Permito-me ancorar o barco
Atrasar o relógio
E ao invés de já chegar para dormir
Vamos sentar nos jardins dos sonhos
Contemplando as cores
Avistaremos o desejo
Pediremos permissão aos Deuses
E assim nos transformaremos
Com a vestimenta azul
Seremos lendas
E sem medo colocarei não só as mãos
Mas todo o meu corpo dentro do seu
Com perfeição
Te levarei pra conhecer mundos invisíveis
Nem medo, Nem assombro
Nem desespero, Nem indiferença
E quanto aos demônios
Fica tranquila...
Serei seu anjo
E anjos precisam ficar acordados e atentos
Por isso não posso dormir...
E só por não poder ser esse "cadin"
Não aceito teu convite
Mas com isso ...sonho.
Serpa
PS: Há algum tempo que eu e meu amigo, Serpa, criamos diálogos para nossa escrita. Essa foi a resposta que ele fez para o meu poema" Vem dormir comigo hoje"... Espero que meu mundo não se acabe, por enquanto, e que dormir continue sendo um prazeroso brinquedo.
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